sábado, 15 de janeiro de 2011

‎"Cuide do sentido, e os sons das palavras cuidarão de si mesmos"

          Já contava algumas semanas que essa sensação não ventava por aqui. Sempre esse vento diferente e igualmente reconhecível. Tão rápido, dono e natural. Nessas horas, penso eu, é que se encontra latente nas coisas da vida a matéria-prima que trabalham os autores, digamos decentes, se me permitem.

          De fato é uma arte. E exige muita dedicação, além de apenas dom, que em certos ambientes nem se significam, quanto menos significam alguma relevância. Particularmente, ainda não passo do ponto em que identifico algo que se conjunta e forma esse equilíbrio repleto de temas e... verdades, eu diria. Sempre não há tempo para se dedicar a esse instante que pode ser modelado e lapidado até se tornar uma elaboração no mínimo significante. Eventualmente sou possuído pela ideia de que para viver, bastaria escrever. Mas, logo caio na real e volto a trabalhar. Isso, pra mim, é quase uma poesia.

          Quando sou atropelado por essa sensação, estou sendo massageado por uma liberdade que a nada pode se assemelhar nessas ciências terrestres. Eu saio daqui e enxergo uma história inteira em torno de uma citação dentro desse equilíbrio e, além disso, crio um momento único de satisfação que ninguém pode fazer. Desses que vivemos inconscientemente buscando e quando ocorrem, quase desejamos parar no tempo ou prolongá-lo o máximo possível. Escrever, afinal, liberta dependendo da inspiração para tal.




ps: ‎"Cuide do sentido, e os sons das palavras cuidarão de si mesmos"

(Em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll)

Um comentário:

  1. "Não, isto tudo não acontece em fatos reais mas sim no domínio de - de uma arte? sim, de um artifício por meio do qual surge uma realidade delicadíssima que passa a existir em mim: a transfiguração me aconteceu.
    Mas o outro lado, do qual escapei mal e mal, tornou-se sagrado e a ninguém conto meu segredo. Parece-me que em sonho fiz no outro lado um juramento, pacto de sangue. Ninguém saberá de nada: o que sei é tão volátil e quase inexistente que fica entre mim e eu.
    Sou um dos fracos? fraca que foi tomada por ritmo incessante e doido? se eu fosse sólida e forte nem ao menos teria ouvido o ritmo? Não encontro resposta: sou. É isto apenas o que me vem da vida. Mas sou o que? a resposta é apenas: sou o que. Embora às vezes grite: não quero mais ser eu!! mas eu me grudo em mim e inextricavelmente forma-se uma tessitura de vida.
    Quem me acompanha que me acompanhe: a caminhada é longa, é sofrida mas é vivida. Porque agora te falo a sério: não estou brincando com palavras. Encaro-me nas frases voluptuosas e inteligíveis que se enovelam para além das palavras . E um silêncio se evola sutil do entrechoque das frases"

    Água Viva
    Clarice Lispector

    ResponderExcluir