sexta-feira, 29 de julho de 2011

A bala (ele, ela e a rosa)

          Todo dia ele refazia aquele mesmo caminho. Com a bicicleta herdada do primo mais velho, que já estava nos vídeo-game, o mesmo trajeto era feito todos os dias. Alguns dias por mais de uma vez, inclusive. Diversos caminhos podiam ser feitos pelo bairro até a tal rua da tal casa, que era o destino obrigatório. A cada dia optava por um meio mais inusitado. Fazia daquela tarefa diária uma nova aventura conforme a imaginação apontava. Se não fosse aquele dia em que a viu pegando seu presente, talvez não houvesse inspiração para tantos esforços. Reconhecia intimamente que não era mesmo uma boa maneira aquela que escolheu para a gentileza. Jogar a bala no quintal da menina era no mínimo grotesco, mas na época, ele nem sabia o que era isso. E a bala era a preferida dela. Ele sabia disso da escola.
          E as aventuras multiplicavam-se através da disposição para jogar a bala de maneira que ninguém percebesse. Chegou a adquirir uma certa habilidade no arremesso do doce. Até em movimento! Mesmo pedalando, sempre acertava no mesmo canteiro de rosas. No outro dia, sondava para ver se o presente havia sido aceito e partia para a próxima oferenda.
          Tudo bem, tudo bom. Ótima essa relação. Estável. Mas, numa dessas de mirabolar o trajeto, pois ela merecia um sacrifício para receber aquela bala, ele não notou o furo no bolso da bermuda escolhida para aquela missão (até isso tinha). Tragédia! Na hora do tiro, cadê a bala?
          E o nobre menino não se perdoou mais. Viu a casa passar com o canteiro de rosas e  a certeza de que ela estava lá dentro da casa também na certeza, só esperando a hora da rosa dar a bala pra ela.

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