sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Desafiators e Kamikazes: uma lição de vida.


Sempre achei e hoje penso que cada pessoa carrega, para equilibrar com suas virtudes e dons, algumas energias que as desgastam e as fazem refletir sobre si e sobre seu “ser no mundo”.

Tal pensamento tem raiz na freqüente ocorrência que me flagro observando não só a mim mesmo, mas a algumas pessoas e em cada uma delas, a sua suposta demanda e características digitais dessas cobranças impostas pelo complexo equilíbrio que acredito sustentar a vida e ao qual estamos inseridos.

Algumas pessoas, por algum motivo que não me meto, são cobradas na saúde e passam por essa experiência a carregar enfermidades, já outras vivem a necessitar de alguém para então voltar a sofrer. Essas gostam mesmo é de sofrer e ao que reparo, depositam nesse alguém o seu pesar certo.

Essas manifestações que aqui chamo de cobranças podem admitir tantas e variadas formas quanto às tantas e variadas personalidades que formam nossa sociedade global.

No meu caso, cada dia que passa, ou melhor, cada noite que passa eu carrego mais certeza de que a minha cobrança é manifestada pela natureza. Sim, a nossa mãe, justa como só ela, arranjou de me escolher para ser o vigiado de outra de suas criações.

Minha cobrança são os pernilongos!

Tenho certeza: esses bichinhos são a minha cruz.

Carrego uma verdadeira história com esse Himantopus himantopus. Aliás, histórias.

A última foi há uma duas madrugadas. Mesmo criando algumas táticas para manter o enfrentamento e não ceder, afinal o Homo sapiens aqui sou eu e não vai ser esse sanguessugazinho que vai me reprimir dentro da minha própria casa, tenho sido surpreendido pela organização que esses insetos vem demonstrando.

Eles dividem-se em grupos com objetivos específicos e são obstinados em suas execuções. Acreditem, eles podem dominar o mundo! Alguns eu os identifiquei e denominei de os desafiators. Esses são os que, você ainda em pleno trabalho, lhe miram na cara e atacam sem muita intenção de picar, mas de abalar psicologicamente, apenas. Como um aviso sobre o que a noite lhe reserva...

Alguns não tem cerimônia e dos tornozelos à nuca fazem seu banquete a qualquer hora. Já outros parecem apreciar o aperto da fome e só aparecem quando esta já os tornou sanguinários o bastante para barbarizar o coitado aqui. E com esses ainda vem aqueles menos dispostos, mas que aproveitando o pique dos sedentos, acabam por “vir no bonde” dos incrédulos mosquitinhos.

Mas, com propriedade vos digo: ainda não conheci tipinho mais inconveniente que os identificados e denominados kamikazes. Miseráveis! Esses são os que ficam sobrevoando seu alvo, geralmente o nosso rosto, até o momento em que os olhos estão virando. Aquele momento mágico do sono quando não percebemos direito onde acaba o estar acordado e inicia o estar dormindo. Parecem dispor de um radar que revela essa passagem para o mundo dos sonhos e despencam meticulosamente sobre nós. Pode parecer exagero o que exponho no momento, mas agora entendo melhor o que é E=mc². E esse ataque vem acompanhado de um zunido descomunal. Quase um rugido! Deus é mais!


Por vezes, ao amanhecer não consigo matar os danadinhos empanzinados e até pesados de tanto me picarem durante a madrugada anterior. Motivo: é tudo sangue do meu sangue. Mas isso está mudando. Venho adquirindo técnicas de extermínio que se comparam aos treinamentos dos ninjas das montanhas japonesas. Uma dica: matar pernilongo não é força, é jeito. Você deve fazer sem raiva. Raiva só atrapalha.

Por isso, quando estou tocado pela sabedoria da vida, os encaro como uma forma de me ver melhor no mundo. Porque mereço esse massacre noturno? Algum motivo tem. Lembro-me agora de um provérbio africano já publicado por aqui há algum tempo: “se você se acha muito pequeno para determinada coisa, tente dormir num quarto fechado com um mosquito.”






PS: Quando a impaciência começa a sobrepor-se à sanidade, lembro-me de que por outro lado isso é um sinal de que sou um cara sangue bom. Dãr!

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