domingo, 1 de janeiro de 2012

Devoção e Desfrute

Já se acumulavam quase dois meses desde a última onda que eu havia furado           e a imagem do sol rachando os telhados do Engenho Velho da Federação, bairro que é a vista do apeliê onde moro, já havia provocado em mim algo de perda e desperdício.
           
Tanto sol e eu com essa imagem presa na janela daquelas casas, tão sob o sol quanto eu. Talvez elas sim é que merecessem a praia, pensei comigo.
           
Resolvi quebrar esse jejum inconsciente e urbanóide misturando devoção com lazer, obrigação e desfrute. Era a última sexta-feira do ano e um banho de mar era bem-vindo e necessário.
           
Buracão é a praia. Mais por afinidade e quesitos geográficos do que por excelência da praia mesmo.


           
E foi uma bela praia com um espaço de areia mais amplo e mais comum nesta época do ano, segundo locais.
           
O mar também não deixou nada a desejar com as ondas generosas e brincantes de nossa Mãe, Dona das Águas. Odoyá!
           
De repente, para além da satisfação que já se estabelecia por aquela troca com a natureza sou presenteado por mais uma daquelas sensações que por aqui já discorri, misturada à sensação de ciclos que estão permeando as últimas publicações. Daquelas em que você se sente completo, preenchido simplesmente por ser quem é estar onde está.

E particularmente busco ultrapassar o conceito restrito e apenas pautado no calendário de “ano novo”, seguindo uma linha de ciclo cada vez menos anual e mais diário, quiçá horário.

Estávamos - os outros banhistas e eu - naquela região onde as ondas começam a quebrar, sendo possível pegar os melhores “jacarés” da Barra à praia Buracão.

Quem pratica essa modalidade e/ou conhece essa praia valoriza quando o mar está propício para tal diversão. Foi aí que aquela sensação bateu.

Eu estava numa das extremidades do contingente que esperava as ondas nessa região e num momento pude contemplar pela minha esquerda os diferentes rostos, olhos e olhares fixos nas ondas.

Eram pessoas de idades diversas, um ou outro senhor, mulheres de meia idade, uns turistas mexicanos, todos com a mesma atenção quase infantil, no sentido orgulhoso da palavra, pela expectativa daquela onda em que o seu jacaré se encaixa.
           
Alguns pareciam que foram ali só para isso. Nos semblantes da galera eu vi uma satisfação coletiva, de meninice de bairro.

A minha mente guardou aquela cena em slow motion: homens e mulheres sendo crianças novamente.

Momentos como este é que inconscientemente buscamos. Estamos a todo tempo tentando sentir as mesmas sensações que nos completavam quando criança.
           
Às vezes para isso acontecer, basta ir à praia. E nem precisa ser a última sexta-feira do ano.

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