domingo, 20 de maio de 2012

Peço-te calma. Datas são datas. (por Llusciab Batércia)


Professor Anderson Lopes. Que bom poder te responder!

Naquele dia, lendo sua carta, pensei em como não conseguiram acabar com o ímpeto humano de transformar o mundo em que se vive. Logo depois, caí numa leitura que me consumiu dias de digestão sobre o que diz Eric London em seu O lobo do mar. Recomendo.

Escrever para o senhor sempre é uma atividade prazerosa, mas que não pressupõe, ainda, com todo o respeito, atas definidas por datas. Datas são datas. Vivemos os dias e as datas são apenas datas porque vivemos o dia em que elas se tornaram datas. Aliás, somente porque o dia foi vivido é que elas se tornaram datas. A data que o senhor me sugere comentar na carta anterior, para mim é tão simbólica quanto a data que meu cachorro cagou no quintal de casa pela primeira vez. E olhe que ele já morreu há muitos anos.

Escrevo, então, para dividir alguns aprendizados que pude acumular nesta minha discreta trajetória. Peço-te calma, meu jovem. Os fatos que sucederam perante os meus olhos me levam a auxiliá-lo neste sentido. Estou acompanhando as notícias sobre a greve dos professores estaduais. Imagino o quanto isto deva estar te incomodando por impedir que o senhor, enfim, entre em contato mais direto com alunos da rede pública. Sei o quanto aguardavas por este momento e por essas vivências. Também por isso é que peço-te calma. A calma é um estado de ausência de nervosismo e de atividades intensas, das quais, provavelmente, a sua mente esteja se rompendo em si mesma, tendo como tema central a protelação da parte do processo que mais te cativava.

Caso suas angústias não estejam tão ressaltadas quanto aqui suponho, reconforto-me pelo calor e vigor de sua maturidade por não encarar um processo legítimo como apenas um empecilho descabido. A atual greve é parte da profissão e (in)felizmente o senhor tem sido atingido por ela. Mérito para os grevistas, pois essa é função de uma greve, penso eu. Ela deve atingir a sociedade e levá-la e discutir sobre seu tema, no caso, a Educação de um país. A Educação do Brasil, oras! De fato, existe sim uma mistura de prazer com agonia quando tratamos de Educação e me parece que o senhor já tem provado dela.

Sugiro também que busque notícias de diferentes fontes sobre os passos das negociações. Isso é essencial para que você saiba como se posicionar sem prejudicar o interesse comum da sociedade por pura inconsciência, o que no caso de professores em formação, como nós dois e todos os grevistas e não-grevistas, se torna algo ainda mais nocivo.

Não cumprir acordos é muito grave. Isso gera a greve. Veja como a nossa língua sugere fórmulas quase matemáticas para os problemas. Um par mínimo e pronto: greve é grave, mas se é grave, greve!

Novamente, peço-te calma. Não sofra. Tudo será mesmo um processo e o seu objetivo e fazer com que a atualidade ocorra de forma responsável. Se o presente pede medidas drásticas como uma greve, é isso que deve ser feito e discutido.

Por isso, meu caro jovem professor, não perca o foco no hoje. Temos um compromisso com o futuro, mas é no presente que esse compromisso é cumprido.

Llusciab Batércia

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