segunda-feira, 4 de junho de 2012

O segredo de Bárbara

Ela foi abordada no corredor que ligava os dois prédios. A pergunta foi direta e feita por alguém que sentia propriedade para colocá-la naquele momento e daquele jeito:

- Bárbara, minha querida, nós queremos saber qual é o seu segredo?

Com um café esfriando no copo, ela teve tempo de recorrer à sinceridade que a amaldiçoa a existência, antes de responder apenas para agradar.

Fixando os olhos no café e direcionando-os aos olhos que a inquiriam, revelou:

- Creio que a origem de tudo é nos assumirmos como verdadeiros lixos. Claro que longe da acepção depressiva e soturna da expressão e tendo como sentido mais próximo aquele de ser algo que já foi usado, que já teve a sua função, sua utilidade, sabe? Quanto saber não deve dispor um lixo, não é meu caro?

Quase nada chocado, Joaquim gostou da resposta. E sabia que aqueles que o enviaram com a missão de questionar Bárbara também iriam adorá-la.

- Adooooroo, huhuhuhu! – Joaquim expressou a típica alegria

- Parece que respondi sua pergunta.

- Sim, muito! Grato, minha querida.

- Disponha, Joaquim.

Ele saiu saltitando e ela desprendendo-se.

Alguns dias se passaram e a rotina dos curiosos e do lixo se repetia, aproximando-os na medida em que o desprendimento de um sobrepunha-se ao interesse do outro.

Bárbara sabia que era cobiçada, mas optara por uma vida assim sem expectativas nem idealizações. Era fã de Alberto Caeiro e o seguia quando o assunto era o olhar. Olhar e só. Gostava da ideia de apenar ver, sem interferência da alma neste ato. Talvez por ter visto muitas coisas, vai saber.

Novamente no corredor, ouviu comentários a seu respeito. Na hora, não soube fazer nada além de desprender-se. Afinal, essa era a sua passada, seu trote pelo mundo. Animal desgarrado, assim era Bárbara.

Não se deixava levar por desejos alheios. Apenas os próprios desejos eram seguidos instintivamente e aí é onde ela se garantia.

Deixava de lado questões sobre passado e futuro. Não acreditava no presente. Acreditava no momento, no que acontece, mas não no tempo em que acontece. Também nisso seguiu Caeiro.

O desprendimento é que garantia tudo para ela e fazia a vida acontecer. Em cada não fazer questão das coisas, as coisas faziam questão dela.

Ela era Bárbara mesmo.

E Joaquim a abordava, de novo:

- Menina, quanta luz! “Esbanjando sensualidade”.

- São seus olhos, Joaquim.


- Meus não. Nossos.


- Sim, pode ser. Mas são os seus olhos, e só.


- Porque você se reveste assim de lixo?


- Na verdade eu não me visto. Antes, me dispo.


Joaquim adooooora, como sempre, a resposta da moça. E solta:


- Tem gente que está louca pra levar esse lixo pra casa, viu?


- Viu. Levar pra casa pode, só não pode trancar a porta. – surpreende a desprendida Bárbara.


- Adooooooroooo, huhuhuh!!!


- Respondi sua pergunta?

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